Debate com Diretor Eduardo Coutinho (08set11)
Debate com Diretor Eduardo Coutinho (08set11)

por Raquel Torres (12/09/2011)

Diretor Eduardo Coutinho

A Mostra Audiovisual Estudantil Joaquim Venâncio mostrou que as escolas públicas do município do Rio de Janeiro não são lugares só pra aprender conteúdos de disciplinas tradicionais, como português, matemática e geografia: os alunos produzem filmes, e de boa qualidade. Durante a mostra, foram exibidos 18 curtas-metragens produzidos por estudantes de 13 escolas da rede municipal, escolhidos entre 150 vídeos enviados pelas instituições de ensino.

E um dos maiores nomes do documentário brasileiro esteve presente no primeiro dia da Mostra. Eduardo Coutinho, autor de Jogo de Cena (2007), Edifício Master (2002), e Cabra marcado para morrer (1984), entre outros filmes, veio para apresentar seu mais novo trabalho, Um dia na vida, e para conversar com os participantes.

Diretor Eduardo Coutinho
Diretor Eduardo Coutinho

Ninguém sabia muito bem sobre o que Coutinho iria falar e, na verdade, sequer se sabia que um filme seria exibido: a programação da Mostra só anunciava o nome do diretor e dizia que haveria um debate. Pouco antes de ele chegar, a platéia entendeu o porquê disso. Um dia na vida é, nas palavras de Coutinho, uma obra “clandestina”, que consiste no resultado da gravação de 19 horas de programas e comerciais da televisão aberta brasileira, editadas para que coubessem em cerca de 90 minutos. Como não tem autorização das emissoras e das empresas das propagandas, Coutinho não pode, teoricamente, exibir o trabalho – daí todo o suspense em torno da sua vinda e da sua fala.

Um dia na vida

Durante uma hora e meia, a plateia assistiu a uma compilação daquilo que é apresentado à população brasileira num dia comum. Coutinho explicou que a gravação foi feita ininterruptamente desde a manhã do dia 1º de outubro de 2009 até a madrugada do dia seguinte. De acordo com o diretor, tudo interessava, exceto programas que não tivessem sido feitos exclusivamente para a televisão, como filmes produzidos para o cinema e que são transmitidos na TV.Não há nenhuma fala e nenhuma entrevista; os trechos dos programas são apresentados em ordem cronológica, com um mostrador no alto da tela indicando o horário em que aquilo foi exibido.

Diretor Eduardo Coutinho
Diretor Eduardo Coutinho

A impressão é a de se estar assistindo televisão com alguém trocando de canal de tempos em tempos. E o filme traz quase de tudo: uma videoaula do Telecurso 2000; comerciais voltados para crianças; um médico apresentando roupas íntimas que evitam a flacidez feminina –
que, ele alerta, começa aos 22 anos; a apresentadora Ana Maria Braga tocando uma música no videogame Guitar Hero e dizendo que o público precisa comprar um; desenhos animados; telejornais diversos; um programa de auditório que apresenta da transformação total – por cirurgias, maquiagens etc – da ‘mulher mais feia do mundo’; o apresentador Wagner Montes dizendo que um assaltante merecia levar tiros na cabeça; o programa do Chaves; mensagens de igrejas evangélicas; e até trechos de um programa que é todo voltado à venda de anéis pelo telefone.“A TV quer despolitizar”No debate que se seguiu à exibição, Coutinho provocou a plateia perguntando qual tinha sido a sensação de assistir, em tela grande, aquilo que se vê todo dia em casa.

Debate com Diretor Eduardo Coutinho (08set11)
Debate com Diretor Eduardo Coutinho (08set11)

O público concordou que uma das coisas que mais chamam a atenção é a péssima qualidade da programação, que chega a cansar, a dar vontade de ir embora. Coutinho afirmou que a TV tem sempre um efeito alienante. “Seu efeito é despolitizar. Ela sequer deseja fazer com que o público se torne de direita ou de esquerda: quer despolitizar. E consegue”, disse.Para ele, é interessante pensar como, de certa forma, o fato de o material ser exibido na telona o legitima enquanto ‘cinema’, embora nem mesmo o autor tenha certeza de que se possa chamar Um dia na vida de ‘filme’. Para Coutinho, o trabalho é importante de ser guardado para se revisto daqui a 20 ou 30 anos. “Imagina o que ele vai representar nessa época? Certamente é interessante ter esse registro. Mesmo que ele não sirva para nada. Afinal, a gente nunca sabe se aquilo que faz vai servir para alguma coisa”.

O cineasta disse não acreditar que o documentário e a arte em geral realmente mudem algo no mundo. De acordo com ele, se seu filme mudar a forma como algumas pessoas veem o mundo, isso já basta. “O cinema faz uma mediação longa. Não quero que as pessoas saiam da sala com ideias prontas. Meus filmes não são feitos para responder a coisa nenhuma, mas para fazer perguntas”, concluiu.

Polêmicas

Coutinho falou também sobre a polêmica que envolve o controle dos veículos de comunicação. De acordo com ele, o debate em torno disso tem sido mal conduzido, “tanto pela esquerda, quanto pela direita”, e o cerne da questão é o fato de que as emissoras de TV são concessões públicas. “As emissoras não são estatais, mas são públicas.

Debate com Diretor Eduardo Coutinho Temos dificuldade de aceitar que existe o público não estatal. Para nós, praticamente não existe o interesse público”, afirmou, dizendo que o correto seria que as concessões fossem feitas e renovadas dependendo do cumprimento de certas obrigações.

“Mas, aqui, ‘dão’ o canal sem mesmo perguntar se a pessoa que o está recebendo tem condições de manter uma programação, e renovam sem avaliação”, disse.Ele disse também que a lei de direitos autorais precisa ser reavaliada e modificada, também em nome do interesse público: “Esse assunto é delicado, mas é preciso melhorar. Uma lei precisa dizer que aquilo que é de interesse público tem que ser pedido e alcançado por todo mundo”.

Censura estética

O cineasta afirmou ainda que hoje há, de certa forma, uma censura na televisão: “Não é mais a censura de antigamente. É a censura estética. A forma é fundamental na televisão, e hoje tudo é padronizado. A forma é muito mais ideológica do que qualquer coisa”, disse.Ele exemplificou com um caso do programa Fantástico, da rede Globo.

De acordo com Coutinho, um jornalista bolou uma série de oito capítulos sobre a China, e a única restrição que recebeu não foi política. “Não disseram que ele não podia falar desse ou daquele regime, que não podia falar de Mao Tse-Tung. A única coisa que disseram foi: a reportagem não pode ter um silêncio que dure mais de dois segundos.

E aí acaba tudo, né? Como fazer um programa bom sobre a China sem silêncio? A TV é um inferno em que não pode haver silêncio. Em Um dia na vida, por exemplo, não há um segundo sem música ou voz. O espectador não tem espaço nenhum para pensar”, criticou.

Debate com Diretor Eduardo Coutinho

Fonte:http://www.epsjv.fiocruz.br/index.php?Area=NoticiaInterna&Num=222&Destaques=1

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